Voce foi muito importante pra mim
Tava aqui hoje mexendo numas coisas e achei umas fotos nossas num álbum de
aniversário que você me deu. Tanta história contada em páginas criadas por você
num tanto de tempo atrás que parece que já passou foi muito tempo. Bateu
saudade gostosa, sabe? Nada daquela saudade possessiva ou que clama pra entrar
numa máquina do tempo e bater na tua porta feito a primeira vez.
Você tá sendo uma lembrança boa de alguém que foi muito
importante pra mim. De um amor que foi amor, sim, mas acabou. Acabou e eu te
guardo com carinho nos traços, nos quartos, no jeito de rir que eu peguei de
você. Te guardo nas formas de redecorar as folhas de caderno, de olhar as
vitrines da loja e de sair das mesmices. Cê me tirava da monotonia de um jeito
fácil demais, e eu nem desconfiava que era planejado. Também não dava pra
suspeitar porque olha, se tem uma coisa que me faz falta, é aquele sorriso
espaçado com uma brecha entre os dentes do qual eu tanto debochava. Debochava
de você sem confessar que eu bancava o bobo pra te ver feliz.
Você foi aquela minha história bonita que eu vou contar
pra todo mundo. Vou lembrar do teu nome no meio da noite e te ligar, se não for
incômodo, pra bater um papo e brincar de reaquecer o passado no forno. Mas sem
aquele desespero de querer de volta ou de escrever recaídas tortas na portaria
do teu prédio. Só sinto mesmo um gostinho de doce na boca quando abro as vogais
do teu nome e faz bem adoçar a língua com as memórias boas de você.
Cê sabe que eu ainda guardo tudo que foi da gente? Guardo com afeto e sem
ressentimento. Nosso amor-superado bate à porta como um velho amigo e eu me
preocupo tanto com você ainda que no fim do dia eu me pergunto se você tá
feliz. Tá feliz? Se não tiver me liga e vem pegar uma praia comigo que eu te
coloco nos eixos e te lembro que ainda vai aparecer alguém pra te lembrar, pra
justificar o porquê de você não ter dado certo com ninguém até agora. Me liga e
vem tomar uma cerveja comigo pra gente trocar umas confissões como dois
melhores amigos, mesmo que isso alimente receios dos outros que insistem em
dizer pra gente que o nosso problema é ter deixado ponta solta no fim da
história. Bobagem deles. No meio das confissões e dos nossos trôpegos segredos,
a gente já deixou claro um ponto final ali no meio. O que a gente sente pelo outro
é carinho agora.
E eu acho tanta graça quando a gente percebe que num
mundo como esse ainda tem gente que não sente essa saudade boa do passado. Essa
coisa gostosa de respirar aquele ar gelado e se lembrar do mar. É tipo isso que
eu sinto quanto lembro do teu nome às 6 da tarde enquanto saio do trabalho. Me
faz um bem danado te encontrar de meses em meses mesmo que a gente não tenha
trocado uma palavra nesse meio tempo. Porque eu reconheço que tem tanto de ti
em mim e tanto da gente escrito por aí que deixar de te levar comigo seria o
mesmo que dispensar as coisas todas (boas, ruins e indiferentes) que a gente
aprendeu junto.
Por isso é que eu te convido no meio da madrugada pra
jogar um ping-pong à beira-mar. Pra bater lá na casa de uns amigos nossos e
chegar de surpresa – e causar espanto em todo mundo que tiver por lá. Por isso
que eu me preocupo de vez em quando e apareço perguntando se você tá bem. Eu
espero que esteja, sempre. Por isso que me pergunto a quantas andam tuas
viagens por Saturno, Netuno, Plutão, e se você precisa de ajuda pra voltar pra
Terra. Se tiver pendendo no espaço e te faltar oxigênio, me chama por aí que eu
apareço pra realinhar os teus planetas. Porque eu tenho a certeza de que a
gente pode não ter sido o caminho certo, mas o nosso passado-guardado fez da
gente bússola um do outro.
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